Escolas demais, engenheiros de menos, artigo de José Roberto Cardoso
filed in Artigos, Profissões on jul.28, 2010
“Um plano de acompanhamento dos estudantes dos primeiros anos das Engenharias é fundamental”
José Roberto Cardoso é diretor da Escola Politécnica da USP e coordenador do Conselho Tecnológico do Sindicato dos Engenheiros do estado de São Paulo. Artigo publicado em “O Estado de SP”:
Em novembro de 2009 o Estado estampou a matéria Ministério espera dobrar a oferta em 6 a 8 anos, em que o Ministério da Educação (MEC) apontava incentivos à criação de novos cursos de Engenharia para suprir a necessidade de mais engenheiros. Dentre as razões apresentadas, citava que a excessiva quantidade de denominações dos cursos de Engenharia limita a expansão da área!
De fato, temos um exagero de denominações nos cursos, mas nem de longe essa é a razão de tal limitação. O causa principal do excesso de denominações dos cursos, fruto da tendência especialista praticada pelas escolas de Engenharia na década de 1970, foi prejudicar sobremaneira a mobilidade de nossos formandos nesse campo. Não tem sentido atribuir nomes a cursos que o próprio setor produtivo não conhece, mais ainda, que os próprios alunos do ensino médio não têm a mínima ideia do seu significado.
Várias especialidades foram criadas para acomodar divergências internas nas universidades públicas e/ou para atrair novos alunos com denominações de cursos ilusórias, oriundas mais de ações de marketing do que da real necessidade da Nação. Não são poucos os estudantes que tiveram sua contratação cancelada simplesmente pelo fato de que o nome de seu curso não coincidia com o nome colocado no edital, apesar de sua especialidade ser uma ênfase da modalidade exigida.
A Europa já resolveu essa questão via tratado de Bolonha, que limitou em 14 as denominações dos cursos europeus; na América do Sul, a Argentina já fez a sua lição de casa, reduzindo-as a 22.
No Brasil a discussão é intensa e estamos longe de chegar a bom termo, pois são grandes as reações contrárias à proposta. Esquecem os dirigentes que os benefícios oriundos dessa redução para os estudantes serão sensíveis, sobretudo quanto à facilidade decorrente das mudanças de rumo de sua carreira e à expansão do leque de opções pós-formatura, além de possibilitar uma revisão em nossos cursos no sentido de levá-los a um conceito mais generalista, como parece ser a tendência atual em todo o planeta.
Com relação aos números, o Brasil apresenta quase 1.500 cursos de Engenharia, que oferecem aproximadamente 150 mil vagas por ano. Apesar de tal oferta generosa, temos apenas 300 mil estudantes nessa área (deveríamos ter 750 mil!) e apenas 30 mil se formam anualmente. A realidade é que a evasão nos cursos de Engenharia é vergonhosa, tudo isso sem contar que recentes avaliações apontam que apenas um quarto desse contingente tem nível de formação considerado satisfatório.
Por essas razões, podemos concluir que não estamos com déficit em número de cursos, mas o rendimento de nossas escolas de Engenharia é muito baixo. As universidades públicas paulistas, estas, sim, poderiam fazer um esforço adicional para aumentar suas vagas nas Engenharias. Há espaço para isso, pois nessas instituições de ensino superior apenas cerca de 25% de suas vagas são destinadas às carreiras tecnológicas, o que mostra um desequilíbrio em relação às demais carreiras.
Levantamentos indicam também que mais de 50% de nossos estudantes abandonam o curso ao final do segundo ano por não conseguirem acompanhá-lo, seja pela dificuldade inerente à formação ou por questões financeiras, visto que o curso de Engenharia é caro, entre outros motivos, pela exigência de laboratórios especializados, que precisam de contínua renovação.
O MEC, por sua vez, precisa encontrar uma solução para mitigar esse baixo rendimento, que ocorre apenas nas carreiras tecnológicas. Já apontamos em outros artigos que uma das razões está ligada à pouca importância que o ensino médio dá às matérias de Física, Química e Matemática, vetores de incentivo à carreira tecnológica.
Adicionalmente, o país apresenta um déficit de mais de 150 mil professores dessas matérias, de modo que temos mais de 150 mil profissionais que ministram Física, Química e Matemática sem formação na área, que transformam essas três disciplinas num “bicho de sete cabeças” que afasta os nossos jovens das carreiras tecnológicas, sobretudo da Engenharia.
Já foi apontado também que a baixa carga horária de Física, Química e Matemática no ensino médio é outra questão que precisa ser revista, pois, se o país pretende atingir um patamar de desenvolvimento superior, suportado por uma tecnologia própria e de alto nível, apenas uma formação sólida nessas disciplinas garantirá a segurança que buscamos no futuro, senão continuaremos fadados a ser apenas exportadores de commodities, e não de produtos manufaturados.
Acontece, no entanto, que as ações para resolver essas questões levarão algumas décadas, mesmo que as atitudes corretivas sejam tomadas de imediato. Apesar de algumas décadas serem um tempo muito curto para uma Nação, são, no entanto, demasiado longo para a Engenharia nacional, de modo que precisamos de ações emergenciais, dado o volume de investimentos projetados para os próximos anos.
Dentre essas ações, julgamos que um plano de acompanhamento dos estudantes dos primeiros anos das Engenharias seja fundamental. As escolas investem recursos e esforços substanciais para atraí-los, mas não para mantê-los.
O governo, considerando a dificuldade do momento, pode injetar recursos nas escolas de Engenharia para atualização de laboratórios, revisão de estruturas curriculares, atualização da base de T,I&C para acelerar o processo de ensino e aprendizagem e garantir uma boa formação.
Quanto aos professores, devem entender que a Engenharia mudou. Está mais centrada na gestão do que no projeto, de modo que a estrutura curricular deve contemplar esta evolução sentida pela nossa profissão.
Fonte: Jornal da Ciência
Equipe ProjetistasBrasil.com


julho 29th, 2010 on 13:13
Jovem Cardoso: Muito apreciativo o artigo transcrito ao qual foi esboçado por você.Concordo em varios pontos,num em destaque as matèrias matematica,fisica e quimica no nivel médio deixa a desejar.Não querendo ser o avô coruja(não gosto da palavra inteligente),vejo a dificuldade de minha neta no ensino médio. Ela tem se esforçada para chegar onde esta(na escola “SENAI”).Mas espero sim ser reduzidos os do terceiro grau,doutorado, mestrado etc. etc.
julho 29th, 2010 on 22:02
Caro Cardoso…antes de mais nada, parabéns pelo seu artigo, algo digo que realmente reflete a atual fase em que vivemos. Sou Engenheiro e de fato consigo notar, o grande comércio que se tornou as entidades de ensino particulares, onde o principal objetivo está ficando de lado por questões financeiras. Uma coisa que eu acho inadmissivel está sendo a redução no tempo de formação, muitas faculdades criam cursos de engenharia com duração de quatro anos, sendo que com 6 anos como antigamente ocorria dava-se para ter o básico do conhecimento. O fator fianceiro é o que de fato mais estraga, temos cursos de engenharia a menos de 500 reais….pô que bom….vai formar engenheiro a rodo desse jeito, mas ai é que tá o principal, e a qualidade? o conhecimento ? o poder de resolver problemas? São coisas que estão ficando mais dificeis a cada dia que se passa. O que salva são que ainda existem pessoas que sempre correm atrás do prejuizo e procuram ser melhores nessa profissão que tanto me orgulho….até mais
julho 30th, 2010 on 8:24
Infelizmente temos notado que a educação se transformou em mais um tipo de comércio onde apenas o lucro é visualizado pelos donos de algumas escolas/faculdades.
Hoje pagamos preços altíssimos pela nossa educação, e em muitos casos de má qualidade.
Isso pode ser notado com muito mais enfase em nossa área de engenharia/exatas, existem muitos cursos de graduação de péssima qualidade, cursos inclusive que passam de mil reais por mês de mensalidades.
Por isso é muito importante procurar referências de onde queremos estudar, muitos escolhem pelo preço, afinal quanto “mais caro melhor”…mero engano…temos que cobrar mais enquanto alunos para que possamos ter uma formação cada vez mais qualificada. O mercado de trabalho exige que saibamos sempre mais com menos tempo de formação, não podemos ficar parados!!!
Grande abraço pessoal.
Rodrigo Gomes